terça-feira, 9 de outubro de 2012

O abraço da velha na Boca do Monte



O ano passava inteirinho até entrarmos no avião com coisas pelos braços, sempre atrasadas para a possibilidade de uma vida nova. Passei a minha infância e boa parte da juventude vivendo com minha mãe suas tentativas de voltar a viver na sua terra natal. Essas tentativas duravam o tempo exato das férias de verão. Exceto uma vez, que o verão durou todo o inverno.
Verde Colorido - Chácara das Flores
Atravessava o país voando, e atravessava o estado gaúcho pela estrada para entrar na Boca do Monte...cheia de verde colorido, chão de pedra embutida, marcado de doces na esquina e chegava no portão menor que eu, com um ferrolho singular e lá estava a velhinha da Vila do Carmo, sentada em sua cadeira de balanço, com o mate do lado , a cabeça branca e o braço molinho, gostoso de apertar.
Dois meses voavam, e aprendi a viver morrendo de saudade de lá, ou de cá. Hoje quando volto a Santa Maria da Boca do Monte diminuiu a cidade, o chão de pedra asfaltou, o mercado virou lan house e a vovó já não está mais ali...Aquela casa, aquela vila, aquela vida , tinha muito cheiro de eternidade....nunca pensei que fosse acabar.
Mas... ainda sento na calçada e dou aquelas risadas infantis, e lavo minhas mãos do cheiro de cigarro cigarro nas filhas das pitangueiras e sonho em soltar meus filhos lá , para essa história continuar....

Vila do Carmo - a casa que só existe em fotos. 


Um comentário:

  1. Você explora bem as imagens da mitologia pessoal. A mudança de dimensão (aparente) da cidade é um ponto alto. O tom é bem próximo ao texto motivador, de Manuel Bandeira.

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